quinta-feira, setembro 21, 2006

A Grande Responsabilidade dos Que São Perdoados

Por David Wilkerson

Em Mateus 18, Jesus usa uma parábola para ensinar aos discípulos como é o reino dos céus. Como em muitas das parábolas, tudo no relato se relaciona a Cristo e Sua igreja.

Jesus começa descrevendo um rei que chama seus servos para prestarem contas. As escrituras registram: "E (o rei), passando a fazê-lo, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos" (Mateus 18:24). Cá estava um servo com uma tremenda dívida. Ele devia ao rei o equivalente a centenas de milhões de dólares, quantia que nunca poderia pagar.

Jesus não conta como esse homem caiu numa dívida tão incrível. Algumas versões da parábola dizem que ele era um escravo, e que a dívida era um empréstimo não pago. Contudo, tudo que sabemos do evangelho de Mateus é que ele teve acesso a grandes recursos, e os esbanjara.

Quero mostrar duas coisas importantes relacionadas a esta parábola. Primeiro, os servos representam crentes, os que trabalham no reino de Deus; assim o servo endividado aqui não era estranho ao trabalho do rei. Segundo, descobrimos mais adiante (em Mateus 25) que o propósito de Deus ao dar talentos ao Seu povo é produzir frutos. Todos os que recebem talentos do Pai são ordenados a investi-los. Deus não dá talentos simplesmente de modo indiscriminado. Ele espera colher fruto dos investimentos que faz no Seu povo.

Evidentemente, o rei em Mateus 18 estava tratando com servos que haviam sido denunciados por haverem cometido crimes. E o servo com grande dívida foi um dos primeiros ofensores a serem levados até ele. Esse servo provavelmente era um homem muito talentoso, do qual muito se esperava. (Caso contrário, não teria tido acesso a tudo que esbanjou.) Porém quando foi chamado a prestar contas, viu-se que ele não tinha "porém, com que pagar" (Mateus 18:25). Então "ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga" (18:25).

Esse homem não tinha nada de valor que pudesse usar para seu débito criminal; não tinha dinheiro, bens, nada de mérito a oferecer. Então, o quê fez? Ele "prostrando-se reverente rogou: Sê paciente comigo, e tudo te pagarei" (18:26).

É importante saber o significado de "reverente" aqui. Em grego quer dizer "bajulando ou curvando-se servilmente; beijando como o cão lambendo as mãos do dono". Esse homem não estava ajoelhado se arrependendo; ele estava bajulando, tentando adular o senhor; não estava pedindo perdão ao rei, mas paciência. Ele queria outra chance, rogando: "Me dê um pouco de tempo. Posso compensar pelo meu pecado, e satisfazer todas as suas exigências".

A verdade é: não havia possibilidade de o servo pagar pelo crime. Ele jamais iria conseguir o necessário para repor os fundos que havia usado mal, ou esbanjado. Eu assemelho a atitude dele à do cristão que é pego em adultério. Quando o seu pecado é mostrado, a primeira reação é a de uma dor falsa, bajuladora. Ele chora: "Ó Deus, não deixe que eu perca o meu casamento, a minha família. Não acabe com a minha carreira; não me leve à falência. Tenha paciência comigo. Preciso só de mais uma oportunidade". Aí ele suplica ao cônjuge: "Por favor, me dê apenas uma chance". Porém em realidade, esse homem nunca poderá compensar pelo que fez. É simplesmente impossível.

O Servo da Parábola Foi Perdoado da Grande Dívida
Baseado Unicamente na Compaixão e na Misericórdia


Jesus continua a parábola: "E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida" (Mat. 18:27). Por que o rei iria se compadecer por um bajulador? O servo não estava arrependido. Em verdade, não tinha noção da extensão de sua pecaminosidade. Descobrimos isso mais adiante na parábola, quando se revela que o coração dele é duro e sem compaixão.

Esse homem era um ator, sem intenção de mudar. E certamente o rei discerniu isso; afinal, ele aqui representa o próprio Cristo. Ele tinha de saber que o servo estava tentando trabalhar com as emoções, provocar dó. No entanto, a despeito disso, o rei se compadeceu dele. Por que? Não foi por causa das lágrimas falsas. E não foi porque o servo suplicou por paciência e mais tempo. Não, o rei se compadeceu por causa da terrível enfermidade que grassava no coração e na mente daquele homem.

Veja, só um terrível delírio poderia levar este servo a acreditar que poderia realmente pagar a dívida ao senhor. A atitude dele refletiu o quão insignificante ele achava ter sido o seu pecado. Para ele, era apenas um pequeno engano que precisava de tempo para ser resolvido; estava convencido de que se trabalhasse o suficiente, poderia usar suas habilidades para equilibrar os balanços financeiros. Mas o rei entendia de outra forma: nenhuma quantidade de mérito ou de força de vontade poderia resolver o enorme débito no qual esse homem havia incorrido.

Você está entendendo a mensagem? Segundo Jesus, não estamos realmente arrependidos enquanto não nos conscientizarmos da impossibilidade de nós mesmos realizarmos a expiação de nossos próprios pecados. Jamais poderemos reembolsar ou restituir a Deus por nossas transgressões - seja pela oração, consagração ou boas intenções. A Nova Aliança deixa isso claro. No Velho Testamento, o adultério foi declarado como pecado a ser punido severamente. Contudo Jesus viu o pecado do adultério de modo ainda mais sério. Ele diz que se uma pessoa sequer olhar à outra com cobiça, já cometeu adultério. Em resumo, sob a Nova Aliança, as exigências de Deus quanto à santidade se tornam maiores.

Ora, o rei na parábola de Jesus sabia o quanto eram graves as conseqüências dos pecados do servo. E podia ver que se entregasse aquele homem a tais conseqüências, este estaria perdido para sempre. Afinal, tal homem já estava cego aos horrores do seu pecado. E se não fosse perdoado, se tornaria ainda mais endurecido. Iria se aprofundar progressivamente na desesperança, se tornando mais duro para o resto da vida. Então o rei decidiu perdoá-lo. Ele declarou o homem livre e limpo, liberando-o de qualquer dívida.

Quero dizer uma breve palavra aqui sobre arrependimento. Esse conceito é geralmente definido como uma "conversão". Fala de uma meia-volta, de um retorno de 180 graus do caminhar de uma pessoa. Diz-se também que o arrependimento é acompanhado por uma dor piedosa.

Porém, mais uma vez, a Nova Aliança torna um conceito do Velho Testamento ainda mais amplo. Arrependimento é muito mais do que meramente se afastar dos pecados da carne. Ele envolve mais do que a dor pelo passado, e a tristeza por haver entristecido ao Senhor. De acordo com a parábola de Jesus, arrependimento se relaciona ao afastamento da doença mental que nos permite achar podermos, de algum modo, compensar pelos nossos pecados.

Essa doença afeta milhões de crentes. Toda vez que esses cristãos caem em pecado, eles pensam: "Posso acertas as coisas com Deus. Vou trazer-Lhe lágrimas sinceras, mais oração séria, mais leitura da Bíblia. Resolvi que vou compensá-Lo pelo que fiz". Mas isso é impossível. Esse tipo de raciocínio leva à seguinte posição: desespero profundo. Essas pessoas ficam para sempre lutando e sempre caindo. E acabam se estabilizando em uma falsa paz. Elas possuem uma falsa santificação feita por elas mesmas, convencendo-se a si próprias de uma mentira.

É por isso que Jesus nos deu essa parábola. Ele está exibindo a nós o exemplo de um homem de confiança e de talentos, que de repente se revela o maior dos devedores. Eis alguém sem méritos, cheio de motivações erradas, indigno de qualquer compaixão. Contudo o senhor o perdoa graciosamente - assim como Jesus fez com você e comigo.

Diga-me, o quê salvou você? Foram as suas lágrimas, e suas sinceras súplicas? A profunda dor por entristecer a Deus? Sua sincera decisão de sair do pecado? Não, não foi nenhuma destas coisas. Foi somente a graça que o salvou. E como o servo na parábola, você não a mereceu. O fato é que você ainda não é digno dela, não importa o quão piedoso seja o seu caminhar.

Eis uma definição simples para arrependimento real. Quer dizer: "Deixo de lado, de uma vez por todas, qualquer idéia de que eu possa algum dia restituir a Deus pelo que devo. Jamais poderei fazer algo para conseguir de Sua boa graça. Logo, nenhum esforço ou boa obra de minha parte pode pagar pelo meu pecado. Eu simplesmente tenho de aceitar a Sua misericórdia. É o único caminho para a salvação e a liberdade".

Ao Ser Perdoado Unicamente pela Graça,
O Servo Recebeu uma Grande Responsabilidade


O rei subestimou o pecado do servo? Ele fez vista grossa à dívida dele, e simplesmente a desculpou? Não, em absoluto. O fato é o seguinte: ao perdoá-lo, o rei pôs sobre este homem uma pesada responsabilidade. E essa responsabilidade foi ainda maior que o peso da dívida. Em verdade, o servo agora devia ao senhor mais do que nunca. Como? Ele seria responsável para perdoar e amar os outros, assim como o rei havia feito com ele.

Que tremenda responsabilidade é essa. E ela não pode ser separada de outros ensinamentos de Cristo sobre o reino. Afinal, Jesus disse: "Se... não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" (Mat. 6:15). O ponto é claro: "Se você não perdoar os outros, não o perdoarei". Essa palavra não é opcional, é uma ordem. Jesus está nos dizendo basicamente: "Fui paciente contigo; te tratei com amor e misericórdia. E o perdoei unicamente por minha bondade e misericórdia. Igualmente, você deve ser amoroso e misericordioso com seus irmãos e irmãs. Você deve perdoá-los graciosamente, exatamente como te perdoei. Você deve ir para o seu lar, sua igreja, seu trabalho, às ruas, e mostrar para todos a graça e o amor que lhe mostrei".

Paulo se refere à ordem de Jesus, dizendo: "Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós" (Colossenses 3:13). Ele então expõe como prosseguir na obediência a essa ordem: "Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem... acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição" (3:12-14).

Então, o que quer dizer suportar? Em grego significa: "tolerar". Isso sugere suportar coisas que não gostamos. É nos dito que devemos tolerar os defeitos dos outros, agüentar modos que não entendemos.

Então, como o servo perdoado respondeu à graça e ao perdão do senhor? A primeira coisa que fez foi atacar outro servo que lhe devia dinheiro. Ele agarrou o homem, prendeu-o pelo pescoço, e exigiu ser pago imediatamente. É incrível - a quantia era uma ninharia, menos que a paga de três dias de trabalho. Mesmo assim o servo ameaçou o devedor, gritando "Quero o pagamento já!". O homem nada tinha, então se prostrou, suplicando paciência. Mas o servo responde: "O seu tempo acabou".

Digo-lhe o seguinte: esse é um dos pecados mais abomináveis da Bíblia. Primeiro, é perpetrado por um servo de Deus. Diga-me, que tipo de pessoa iria agir assim tão sem piedade? Que coração poderia ser tão ingrato, tão desprovido de um pingo da misericórdia que lhe havia sido mostrada?

Está nos sendo dado um vislumbre das trevas que, o tempo todo, estavam no coração deste servo. Em Romanos 2, Paulo descreve essas trevas: "Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias cousas que condenas...Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais cousas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ou desprezas a riqueza da sua bondade, a tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" (Romanos 2:1, 3-4).

O que Paulo quer dizer quando diz que tal pessoa despreza a riqueza da bondade de Cristo? A palavra "despreza" aqui significa: "Ela não acha ser possível". Em outras palavras, esse crente diz: "Tamanha graça e misericórdia são impossíveis. Não dá para se aprofundar nisso". Tal não se ajusta à teologia dele. Então, ao invés de aceitar essa riqueza, dispõe sua mente contra ela.

Por que o servo ingrato não pôde aceitar a graça do rei? Há uma razão: ele não levou a sério a enormidade do seu pecado. Ele estava muito resolvido, convencido de que poderia sobrepujar o seu débito. Porém o rei já havia dito: "Você está livre. Inexiste mais culpa, cobranças, liberdade condicional ou cumprimento de tarefas. Daqui para frente, você só precisa se concentrar na bondade e na tolerância as quais lhe mostrei".

Tragicamente, uma pessoa que não aceita amor não é capaz de amar outra. Antes, se torna condenatória quanto aos outros. É isso que aconteceu com esse servo. Ele não conseguiu atinar com a misericórdia do rei por ele. Veja, a tolerância e o perdão imerecido da parte de Deus têm um único objetivo: nos levar ao arrependimento. Paulo diz: ignoras "que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?" (Rom. 2:4). Paulo sabia disso por experiência própria, tendo se declarado o maior de todos os pecadores.

Está claro a partir da parábola que essa é a razão de o senhor perdoar o servo. Ele queria que esse homem, o qual fora digno de confiança, se afastasse de suas obras na carne para repousar na incrível bondade do rei. Este repouso iria lhe liberar, por sua vez, para amar e perdoar os outros. Mas em vez de se arrepender, o servo foi embora duvidando da bondade do senhor. Ele não conseguia tirar da cabeça a idéia de que o rei poderia mudar de opinião. Então, resolveu ter um plano de contingência. E, desprezando as misericórdias do rei, tratou os demais com atitude condenatória.

Dá para você imaginar a torturada mente dessa pessoa? Este homem deixou uma situação de perdão, onde experimentou a bondade e a graça do senhor, e ao invés de se alegrar, desprezou a idéia de uma liberdade tão farta. Digo-lhe o seguinte: todo crente que acha que a bondade de Deus é impossível, se abre a qualquer mentira de Satanás. Sua alma não descansa; a mente se agita o tempo todo. E ele fica continuamente com medo do juízo.

Fico imaginando: quantos cristãos vivem hoje essa existência torturante? Será por isso que há tanta contenda, tantas divisões no corpo de Cristo? É por isso que tantos ministros estão em divergências, que tantas denominações se recusam a ter comunhão com as outras?

O espírito de julgamento dentro da igreja é muito pior do que qualquer julgamento que ocorra no mundo. E isso é um tapa na frase de Jesus: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros" (João 13:35). Eu lhe pergunto: há alguma possibilidade de o mundo reconhecer o povo de Deus por esse padrão? Será que os não-crentes dizem: "Essas pessoas realmente são discípulas dEle. Eu nunca as vejo brigando. Elas realmente se amam" ?

Tenho ficado totalmente chocado com as profundas divisões que tenho testemunhado na igreja. Vi isso pessoalmente em uma conferência de pastores num país estrangeiro. Quando cheguei, vários ministros proeminentes me avisaram: "Não coopere com o Reverendo Fulano. Ele tem toda aquela coisa esquisita de adoração, e todo tipo de bobagem carismática. Acho que você não deve dar a ele nenhuma função importante nos cultos". Até os companheiros pentecostais desse homem me disseram para evitá-lo.

Mas quando encontrei o pastor e o conheci, eu vi Cristo nele. Uma ocasião alguém me cochichou: "Este homem é um dos maiores homens de oração do país; ele passa dois dias inteiros por semana só orando". Em verdade, achei o pastor bondoso, gentil e amoroso - exatamente os frutos que Jesus disse que todos devemos ter.

Ao pregar, convidei esse ministro ao púlpito comigo, junto com outros. Isso ofendeu a muitos, e depois vários pastores zombaram de mim. A única coisa que eu podia pensar foi: "Esses homens sabem o quê quer dizer ser perdoado de uma grande dívida. Contudo, entre todos, tais líderes da igreja de Deus se recusam a tolerar um colega pastor a quem nem conhecem".

Em uma outra conferência, testemunhei várias denominações cooperando alegremente. Havia um maravilhoso senso de unidade entre batistas, pentecostais, luteranos e episcopais. A cada noite, o líder de uma denominação diferente dirigia a reunião. Uma noite, um bispo pentecostal fez a abertura do culto; foi seguido por um grupo pentecostal de louvor. Os jovens do grupo estavam cheios de alegria, batendo palmas ao dirigir a jubilosa adoração. Mais tarde soube que alguns deles haviam sido libertos do vício das drogas, e estavam gratos simplesmente por poderem estar presentes.

Mas quando olhei para o bispo, o seu rosto estava ficando vermelho. Ele estava fechando a cara e começando a ferver. Entendi então que a sua denominação não acreditava em adoração impetuosa. E eu havia aderido livremente. Depois do culto, o bispo veio com passos largos até mim e declarou: "Aquilo foi uma vergonha, totalmente da carne. Como você permitiu isso? Vou deixar a conferência, e estou levando todos os 200 pastores comigo". Eu fiquei estarrecido, sem fala. Eu tinha passado semanas ajoelhado em oração, preparando-me para essas reuniões. Mas agora me perguntava o quê havia feito de errado. A verdade é que eu estava sendo sufocado pela raiva daquele homem. Era como a cena da parábola: ele havia me pegado pela garganta, e me fazia cobranças com raiva. Felizmente, o bispo mudou seu coração e não abandonou a conferência. Mas o quê possuiria de tal modo um ministro de Deus, a ponto de se recusar a tolerar um companheiro servo de Cristo? Não houve paciência, nem misericórdia, nem amor por outros possuidores de igual preciosa fé.

Durante anos, o bispo de uma certa denominação me convidou ao seu país para dirigir reuniões. Ele dizia: "Esse país precisa ouvir o quê Deus tem lhe falado". Finalmente, o Senhor me liberou para ir, mas só sob a condição de todas as denominações terem permissão de tomar parte nos cultos. Quando o bispo ouviu isso, se recusou a participar. E proibiu todos os seus ministros de comparecerem. Eles tinham se separado das outras denominações há anos. Um associado deste bispo me ligou explodindo, e disse "Que vergonha! Como um homem de Deus pode cooperar com essa gente?".

Quem, exatamente, eram as pessoas de quem ele estava falando? Como descobri, eram: um bispo luterano que estava pleno de Jesus... um grupo de humildes bispos pentecostais... e um bispo batista que ficara preso sob o comunismo, onde havia lido uma versão copiada à mão do meu livro, A Cruz e o Punhal. Todos estes líderes estavam ansiosos para adorarem juntos, como um em Cristo. Você poderia imaginar qualquer outro líder cristão se recusando a ter comunhão com um grupo destes?

O que há por trás desta rivalidade condenatória? Por que servos de Deus, a quem tanto foi perdoado pessoalmente, tratam mal seus irmãos e se recusam a ter comunhão com eles? Remontando às origens chega-se ao mais doloroso dos pecados: desprezo pela bondade de Deus.

Eu só cheguei a essa conclusão pesquisando o meu próprio coração em busca de uma resposta. Recordei a minha própria luta para aceitar a misericórdia e a bondade de Deus por mim. Por anos, eu havia vivido e pregado sob uma escravidão legalista. Eu me esforçava para corresponder aos padrões que eu acreditava levavam à santificação. Mas eram em sua maioria apenas uma lista dizendo: faça isso, não faça aquilo.

A verdade é que eu me sentia mais confortável no monte Sinai, na companhia de profetas trovejantes, do que na cruz onde a minha necessidade se expunha nua. Eu pregava a paz, mas eu nunca a experimentara plenamente. Por que? Porque eu estava inseguro do amor do Senhor, e de Sua paciência com minhas falhas. Eu me via tão fraco e mal, que me tornava indigno do amor de Deus. Em resumo, eu tornava os meus pecados maiores que a Sua graça.

E porque eu não sentia o amor de Deus por mim, eu julgava todo mundo. Eu enxergava os outros do mesmo modo que eu percebia a mim mesmo: como transigentes. Isso afetou a minha pregação. Eu me irava contra o mal presente nos outros, ao senti-lo crescer em meu próprio coração. Tal como o servo ingrato, eu não havia crido na bondade de Deus por mim. E por não ter me apropriado de Sua amorosa paciência comigo, eu não a tinha pelos demais.

Finalmente, a pergunta real ficou clara para mim. Deixou de ser: "Por que há tantos cristãos duros e não perdoadores?". Agora eu perguntava: "Como conseguir cumprir o mandamento de Cristo para amar os outros como Ele me amou, se não estou convencido de que Ele me ama?".

Volto agora a pensar no bispo que ficou bravo com a adoração impetuosa. Eu creio que aquele homem agiu sob o medo. Ele viu a unção de Deus sobre aqueles cantores, ele ouviu o meu sermão, que ele sabia ser do trono de Deus - e isso ameaçou as suas tradições. Ele estava agarrado a uma doutrina mais do que ao amor de Cristo. E essa doutrina havia se tornado uma parede que o alienava de seus irmãos e irmãs em Cristo.

Paulo admoesta: "Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou" (Efésios 4:31-32).

Jesus Termina a Parábola Com Uma Terrível Advertência

Precisamos levar a sério essa palavra da parábola de Cristo: "Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda... não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (Mateus 18: 32,33).

Ninguém foi mais perdoado de pecados do que eu. Sou um daqueles que foi purificado de pecados "que se elevam acima de minha cabeça", iniqüidades da carne e do espírito muito numerosas para serem contadas. Fui desobediente à palavra de Deus, limitei a Sua obra em minha vida, fui impaciente em relação às pessoas, julguei aos outros sendo eu mesmo culpado. E o Senhor me perdoou de tudo isso.

A pergunta para mim agora - e na verdade, para todo cristão - é essa: "Será que eu tenho paciência com os irmãos? Será que os suporto? Eu efetivamente tolero as suas diferenças?". Se me recusar a amá-los e perdoá-los, como fui perdoado, Jesus me chama de "servo malvado".

Não entenda mal: isso não quer dizer que devamos fazer concessões. Paulo pregou ousadamente a graça, mas instruiu Timóteo: "Corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina" (2 Timóteo 4:2). Devemos ser ousados guardiões da sã doutrina.

Contudo não devemos usar as doutrinas para construir paredes entre nós. Esse foi o pecado dos fariseus. A lei dizia: "Santifique o sábado". Mas o mandamento em si não era suficiente para a carne deles. Eles acrescentaram suas próprias salva-guardas, múltiplas regras e regulamentos que permitiam o mínimo possível de movimentos no sábado. A lei também dizia: "Não tome o nome de Deus em vão". Mas os fariseus construíram ainda mais paredes dizendo: "Nem sequer mencionaremos o nome de Deus. Assim não poderemos tomá-lo em vão". Em algumas seitas judaicas, essas paredes ainda estão em vigor hoje. Mas são paredes de feitura do homem, não de Deus. Logo, é uma escravidão.

Hoje, o Senhor nos diz: "Sede santos, porque eu sou santo" (I Pedro 1:16). Mas os homens pegaram esse mandamento e o usaram para edificar paredes. Eles redigiram códigos quanto a vestimentas, códigos que restringem comportamentos e atividades, padrões impossíveis que nem eles conseguem cumprir. Tais paredes têm levantado fortalezas invisíveis, e só os que estão dentro delas são considerados santos. Todos os que estão fora das paredes estão condenados e devem ser evitados.

Digo-lhe o seguinte: isso é corrupção do pior tipo. A parábola de Jesus deixa isso claro. Tais pessoas estão agarrando os outros pela garganta e exigindo: "Vai ter de ser do meu jeito, e só". Mas nenhum dos mandamentos do Senhor foi feito para ser transformado em parede de alienação.

Qual foi a resposta do rei à ingratidão do servo na parábola de Jesus? As escrituras dizem: "Indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida" (Mateus 18:34). Em grego a tradução é: "levado até o fundo para ser atormentado". Não consigo deixar de pensar que Jesus aqui está falando do inferno.

Então, o quê essa parábola nos diz? Como Jesus resumiu a mensagem aos discípulos, Seus companheiros mais íntimos? "Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão" (18:35).

Eu estremeço ao ler essa parábola. Ela faz eu querer me dobrar sobre minha face, e pedir a Jesus um batismo de amor para com os demais servos como eu. Eis a minha prece; eu encorajo-o a torná-la a sua oração:

"Deus, me perdoe. Eu com tanta facilidade me sinto provocado pelos outros, e tantas vezes reajo com raiva. No entanto, não sei onde estaria a minha própria vida sem a Tua graça e a Tua paciência. Fico perplexo com o Teu amor. Por favor, me ajude a entender e aceitar o Teu amor por mim inteiramente. Essa será a única maneira pela qual algum dia serei capaz de cumprir o Teu mandamento para amar. Então serei capaz de ter paciência e tolerância com os meus irmãos, em Teu espírito de amor e misericórdia". Amém.

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