segunda-feira, agosto 21, 2006

Fariseus da adoração!

por Ramon Tessmann

Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem. (Mateus 15.8,9)

Os fariseus de hoje

Os fariseus não são uma lenda da Antigüidade ou personagens fictícios da cultura hebréia. Atualmente, nossas igrejas, templos e círculos cristãos estão cheios “deles”. São homens e mulheres com um profundo conhecimento sobre as Escrituras Sagradas, são pessoas cheias de explanações teológicas, teorias, possuem um belíssimo e formal linguajar, no entanto, não conhecem o glorioso Deus intimamente e não conseguem prestar a ele uma adoração verdadeira.

No tempo de Jesus, os fariseus exerciam enorme e espantosa influência sobre o povo judeu. Eles insistiam no cumprimento rigoroso da lei e das tradições hebréias. Também costumavam executar práticas minuciosas e cheias de detalhes, mas não compreendiam a essência da lei. Uma certa feita, João Batista os chamou de raça de víboras (vide Mateus 3.7). Também foram denunciados abertamente por Cristo (Mateus 5.20). Foi aos fariseus a quem Jesus se dirigiu no versículo citado no início deste capítulo. Não obstante seus lábios estarem cheios de louvor e honras, seus corações estavam distantes de Deus.

O amado leitor deve estar se questionando porque eu iniciei este estudo falando a respeito dos fariseus, ou deve estar querendo entender a relação existente entre os fariseus e a verdadeira adoração, o tema central deste estudo. A resposta para tais dúvidas é evidente: se anelamos realmente trilhar o árduo caminho da verdadeira adoração, devemos deixar de ser os “fariseus” de nossos dias! Se ansiamos alçar a Deus um louvor que o agrada, devemos deixar de perpetrar as mesmas falhas que a classe farisaica cometia, e dar maior valor às exortações e condenações de Jesus, expostas nos livros de Mateus, Marcos e Lucas.

A respeito da expressão “... em vão me adoram”, proferida pelo Senhor Jesus em Mt 15.8,9, R.N. Champlin tece interessantes comentários:

Essas palavras têm recebido diversas interpretações: 1. Não tinha fruto a adoração daqueles homens, isto é, não havia resultado nem fundamento legítimo. 2. Sua adoração era vazia, pois, embora fosse aprovada pelos homens, não gozava da aprovação de Deus. Por isso é que jamais produziu fruto verdadeiro.

Nos tempos de Cristo, os fariseus apresentavam uma adoração que não agradava a Deus simplesmente porque era falsa, cínica e hipócrita. Ao invés de oferecer sinceramente um coração contrito, humilde e sincero a Deus, eles conseguiam se esconder perfeitamente sob a máscara da adoração. Através dos relatos bíblicos podemos perceber facilmente que os fariseus estavam muito distantes dos ensinamentos de Jesus a respeito da adoração verdadeira. Os escritores dos livros de Mateus, Marcos e Lucas tornam esta verdade bastante evidente.

Querido leitor, neste momento preciso perguntar-lhe algo: Você deseja realmente ser um verdadeiro adorador? Você está realmente em busca do louvor que agrada a Deus? Creio que você respondeu positivamente! Então te digo que o caminho já começou, não é hora do olhar para trás. É necessário pagar um preço e sei que você estará disposto a pagar. Tenho certeza que você sofrerá um pouco ao ler os próximos artigos que vou escrever, mas continue firme e atente para cada verdade ensinada! Deus procura por verdadeiros adoradores, lute arduamente para se tornar um deles!

Se há uma terrível transgressão que fazia parte da vida de um fariseu esta era o orgulho. A vida de um fariseu normal era caracterizada pela altivez e soberba, principalmente no que tangia à religião. Estudiosos acreditam que os rabinos se instruíam a agradecer a Deus por não terem sido criados como um gentio, um plebeu ou uma mulher. Eles eram gratos a Deus por pertencerem a uma classe “superior” de pessoas. Uma das parábolas do livro de Lucas torna esta idéia mais evidente:

O fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano. (Lucas 18.11)

Indubitavelmente, a falta de modéstia ou insuficiência de coragem dos fariseus para assumir seus pecados publicamente, fazia deles falsos adoradores. No texto acima vimos que o fariseu simulou qualidades de personalidade, julgando a si mesmo alguém de elevado nível espiritual. É muito provável que os fariseus se autodenominavam seres quase perfeitos, intocáveis e superiores aos demais.

Os cristãos de hoje devem cuidar para não perpetrar tal transgressão. Confesso que em muitas ocasiões já senti orgulho e vergonha de declarar diante das pessoas que sou pecador e de reconhecer que também erro. Ser dirigente de louvor e servir em cima de uma plataforma por alguns anos me fez esquecer que sou imperfeito, cheio de falhas. Em quase todas as igrejas, existem pastores e líderes que têm caído com freqüência nesta armadilha. Eles não querem ferir sua reputação e passam a imagem de homens perfeitos aos seus discípulos, com o medo de que suas fachadas espirituais sejam desgastadas. Chegam ao cúmulo de não reconhecer perante o povo que são totalmente dependentes de Deus, devido ao seu horrendo orgulho e soberba.

Segundo os nossos dicionários bíblicos, a hipocrisia consiste em fingir alguém ser aquilo que não é como se estivesse representando ser melhor do que, na realidade, o é. Essa é a base do falso orgulho. Alguém gostaria de ser algo significativo. Não sendo isso, o indivíduo apresenta ao público uma fachada de bondade que é falsa ou exagerada. Os sinônimos são a dissimulação, o farisaísmo, o fingimento e a falsa pretensão. O ludíbrio sempre faz parte da vida ou dos atos hipócritas .

Como vimos acima, o orgulho está sutilmente ligado à hipocrisia. Os “fariseus” de hoje se acham superiores aos outros e não querem ser humilhados, devido a sua altivez. A propósito, o vocábulo fariseus significa separados. Na época de Cristo, eles não somente se separavam dos outros povos, como também dos outros israelitas, afinal de contas, eles tinham uma imagem a zelar. Mas mesmo sustentando aquela imagem de santos e sábios não conseguiram enganar a Jesus. Como já esclareci anteriormente, não há possibilidade alguma de conseguirmos enganar a Deus. Ele sonda os nossos corações e conhece o nosso íntimo. Não há como se esquivar de Deus. Nenhum tipo de orgulho, hipocrisia e engano, prevalecerão em sua presença.

O publicano é um personagem que precisa ser lembrado quando se discute a questão da verdadeira adoração. Na parábola de Lucas 18.9-14 percebemos com certa facilidade um intenso contraste entre a adoração do fariseu e a adoração do publicano. Enquanto o fariseu gabava-se por não ser um “pecador” como os demais, o publicano dizia com tristeza:

Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! (Lucas 18.13)

A diferença de espiritualidade é bastante visível neste texto. Numa mesma parábola encontram-se face a face, a falsa e a verdadeira adoração. O fariseu se considerava justo e santo aos seus próprios olhos. Por causa dos destacados atos de compaixão e da sua bondade exterior, ele achava que não necessitava da graça de Deus, e agradecia por não ser “pecador” como os demais. O publicano, por outro lado, estava consciente do seu pecado, e com sincero arrependimento, voltou-se para Deus e pediu misericórdia. Nesta parábola a atitude do publicano simboliza a verdadeira adoração, e nos mostra como devemos nos portar diante da santidade de Deus...

Músicas belas, corações hipócritas!

E ele (Jesus), respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com lábios, mas o seu coração está longe de mim (Marcos 7.6).

No texto de Marcos 7.6, constatamos que os fariseus cometiam o pecado do legalismo. Isto quer dizer que eles substituíam com palavras e práticas externas as atitudes internas requeridas por Deus oriundas do “novo nascimento”. Eles falavam palavras sábias e agiam como pessoas justas, mas sua motivação não partia do desejo sincero de obedecer e agradar a Deus. Neste episódio, os fariseus foram chamados hipócritas, isto é, atores, fingidos religiosos, dissimulados. Era assim que Jesus freqüentemente os considerava.

Ainda nos falta sensibilidade e discernimento para detectarmos o terrível erro do legalismo dentro de nossas igrejas. Se olharmos atentamente para os nossos atos de adoração, constataremos sem empecilhos a presença de exageros, mentiras, declarações inconseqüentes etc. Um bom começo é olhar as músicas que estão sendo cantadas. Já foi dito que as canções que entoamos nos cultos são por demais fantasiosas. Muitas falam de coisas que dificilmente serão postas em prática. São promessas que não serão cumpridas, declarações que não são verdadeiras, pedidos que não representam a vontade de Deus etc. Vamos citar um clássico exemplo. Responda-me com sinceridade: Você poderia viver perfeitamente o que a música abaixo o força a prometer?:

Eu nunca desanimarei,
Eu nunca deixarei de confiar em Ti,
Sempre estarei em oração Senhor,
Minha fé nunca será abalada...

Será que quando um cristão canta esta música, ele está ciente das lutas, tribulações e dúvidas que enfrentará? Será que o cristão continuará firme em oração até o final de seus dias? Será que manterá a promessa de persistir em oração por toda a sua vida? Outro exemplo:

Vivemos em total comunhão,
Aqui não existe mágoa, rancor, tristeza,
Porque somos totalmente unidos,
No amor de Cristo...

Será que estamos preparados para entoar canções como estas em nossas igrejas, sem que um ou outro irmão cante de forma enganosa? Será que realmente não existe mágoa ou tristeza no Corpo de Cristo? Vivemos realmente em total comunhão?

Caro leitor, vale dizer que o problema maior não é as músicas que cantamos, mas a vida que levamos. Isto porque em muitas ocasiões nossa vida não sustenta as palavras que cantamos, ou o sermão que pregamos. É aí que mora o perigo; é aí que está o real problema.

Evidentemente creio que fazemos isto não porque desejamos conscientemente enganar a Deus. Contudo, às vezes falamos a Deus aquilo que achamos que ele quer ouvir, e não o que realmente está em nosso coração. Sem dúvida alguma isso é um tipo de engano. Por isso estes questionamentos acima são extremamente sérios e devem ser tratados com atenção e reflexão. Não estou dizendo que devemos parar de cantar tais tipos de músicas, mas digo que devemos ensinar e ajudar nossos irmãos a viverem os ensinamentos cristãos que estamos cantando.

Às vezes, quando cantamos, oramos ou pregamos, estamos fazendo promessas a Deus sem perceber. Contudo, muitas dessas promessas nunca serão cumpridas. Quantas delas já foram esquecidas? Neste ponto devemos tomar cuidado! Quando lemos o livro de Deuteronômio, vemos que Deus não se agrada deste tipo de atitude:

Quando fizeres algum voto ao Senhor teu Deus, não tardarás em cumpri-lo; porque o Senhor teu Deus certamente o requererá de ti, e em ti haverá pecado. (Deuteronômio 23.21)

O capítulo 30 de Números deixa claro que Deus requeria do seu povo o cumprimento das promessas feitas a Ele. Deus fez os israelitas verem a seriedade de um voto ou promessa, e mostrou que a falsidade, a mentira e a hipocrisia não têm lugar entre o Seu povo. Que esta lição possa valer para nós atualmente!

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